Como o Brasil lida com deficientes auditivos?

Tem umas coisas que a gente não para pra pensar até que alguém nos confronte sobre. Na maioria das vezes, essas coisas têm a ver com a condição de pessoas com deficiência não só no Brasil como no mundo.

Aqui no Indiretas do bem a gente acredita que a melhor maneira de usar a voz que nós temos é falar sobre essas pessoas mesmo que não tenhamos a vivência delas, pois muitas vezes estamos falando sobre pessoas que também não têm, e sempre é melhor aprender junto. Por isso escrevemos sobre autismo, sobre acessibilidade para cegos poderem usufruir da Netflix, e sobre iniciativas que ajudam deficientes visuais 😉

Hoje vamos falar mais um pouco sobre deficiência auditiva.

O que é?

Deficiência auditiva é algo relativamente simples de definir: é a perda total ou parcial da audição, a capacidade de ouvir.

Grande parte das pessoas engana-se ao achar que deficientes auditivos são pessoas que perderam 100% da audição, mas nem sempre. Pessoas são consideradas surdas mesmo perdendo parte da audição, ou, algumas vezes, em apenas um dos ouvidos.

Conversando com o Bruno que tem perda parcial de audição, ele me disse: “eu fui em algumas empresas de telemarketing pra procurar emprego, e nas duas empresas em que eu fui pra estágios seguintes do processo, eu fui barrado na parte de audiometria. Quando eu questionei se eu poderia prestar para a vaga de deficientes auditivos, eles me falaram que eu ‘não sou surdo’ pra isso. Assim como as vezes não sei se devo preencher os formulários dizendo que tenho ou não algum tipo de deficiência.”

Existem, essencialmente, dois tipos de audição: a que consideramos surdez, ou seja, aquela que atrapalha a vida da pessoa e não é considerada funcional na vida normal; e a que é chamada de hipoacústica, que possui um grau de deficiência mas ainda é funcional (com ou sem o aparelho auditivo). O espectro hipoacústico ainda conta com vários tipos de subnomes.

As pessoas também não necessariamente nascem surdas. Como vimos nesse caso da Mandy Harvey no America’s Got Talent, ela ficou surda aos 18 anos como consequência de uma doença, então a surdez pode ser congênita (ou seja, você nasce assim), ou adquirida, em uma doença que provoque lesão dos nervos auditivos.

Existe uma categoria chamada de surdos oralizados, que são pessoas com deficiência auditiva “que falam normalmente (ainda que com sotaque típico) e se comunicam valendo-se da leitura labial. São pessoas que perderam a audição depois da aquisição da fala através da audição (também chamados de surdos pós-linguais) ou cujos pais acreditaram na oralização através da fonoterapia.” (informações retiradas do blog Desculpe, não ouvi!) Existem também os surdos sinalizados, que são aqueles que são alfabetizados em libras: “aquele surdo que independente do grau/ nível de surdez, que usa ou não aparelho auditivo (a maioria das pessoas surdas sinalizadas que conheci não costumam usar aparelho auditivo), mas este surdo apenas usa a língua oficial LIBRAS, reconhecida como a segunda língua oficial do Brasil.” (informações do site O quê? Como? Não entendi!)

E eu ainda poderia ficar aqui um tempão falando sobre os tipos de surdez, e ainda pegando emprestadas as palavras do Bruno: “Isso é só um exemplo de que as pessoas precisam conhecer melhor mesmo esse nosso mundo, pois existem vários tipos de deficiência. (…) Meu tipo de deficiência não é que eu não escuto, eu escuto, mas meu tímpano não recebe vibrações suficiente e consequentemente ele não manda as palavras (vibrações) completa para o cérebro. (…) Deficiência Auditiva é algo maior do que você imagina, pode passar dias pesquisando, mas nem mesmo eu que nasci assim tenho conhecimento de tudo.

Alguns dados no Brasil e no mundo

Segundo o censo de 2010 pelo IBGE, o Brasil totaliza quase 10 milhões* de pessoas consideradas surdas, quase 1 milhão delas sendo jovens até 19 anos e crianças. Nos últimos anos, as principais conquistas dessa comunidade foram a Lei nº 10.436 de 2002 que oficializa a Língua Brasileira de Sinais (Libras) no Brasil e o decreto nº 5.626 de 2005 que torna obrigatória a disciplina de Libras para professores em formação.

Há também, no Brasil, também desde 2005, uma norma na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) que padroniza o closed caption como método usado pra trazer acessibilidade pra televisão brasileira. O closed caption é uma legenda oculta que inclui, além das falas, identificação de música tocando e sons não-literais (como cachorros, portas, salto no chão).

No mundo, cerca de 16% da população sofre com deficiência ou perda auditiva, totalizando 800 milhões de pessoas, e só um terço desse número são pessoas idosas.

*É importante dizer que em 2017 esse número muito provavelmente já aumentou.

No Enem…

A redação do Enem de 2017 trouxe o tema Desafios da Formação Educacional de Surdos, e na internet, muito se falou sobre isso no primeiro final de semana da prova.

As razões para tal tema foram apontadas por uma matéria na Folha de São Paulo, que mostrou que houve uma diminuição do número de pessoas surdas matriculadas em escolas públicas e privadas no Brasil. Não é muito difícil entender por quê.

A Luna, usuária @cecinne no Twitter, publicou uma thread –linha de raciocínio– onde ela fala da própria experiência como deficiente auditiva em grau moderado, oralizada e usuária de aparelho. A explicação dela começa aqui (abra o tweet no navegador e vá lendo as respostas dela mesma):

Entre outras coisas, ela fala que foi impedida de aprender Libras pelos médicos, já que ela ouvia o suficiente então “dava pra forçar.” Foi só com 15 anos que ela teve o primeiro contato com outras pessoas surdas e isso mesmo não se sentia parte da comunidade pois era forçada a viver entre ouvintes normais, sem uso de aparelho e educada normalmente –sem, obviamente, aprender normalmente ou atingir o seu potencial total.

Eu me importo que os filmes nacionais/animados não tenham legenda closed caption no cinema. eu me importo em como as aulas são dadas. Eu me importo que nenhum professor se importa em garantir acessibilidade em suas aulas. que não se tenha intérpretes de Libras nas escolas. Eu me importo que pessoas surdas são sistematicamente excluídas da educação formal porque ninguém LEMBRA que elas existem.

E esse não é um problema exclusivo do sistema e sim uma coisa que acontece até mesmo dentro das escolas, com professores que deveriam ser sensíveis a esse tipo de situação. Lembra lá no início do texto do decreto que trouxe Libras para o currículo de professores em formação? Isso não é uma coisa que é posta em prática por muitos.

Logo depois da liberação do tema do Enem, uma professora se manifestou em suas redes sociais com uma fala que basicamente dizia que a prova não deveria cobrar esse tipo de opinião já que ela formava toda sorte de profissionais e não “candidatos a concurso público na área de educação inclusiva.

Esse post foi questionado por Pamela, ex-aluna da tal professora e que hoje é ela mesma professora do curso de Letras-Libras na UNIFAP (Universidade Federal do Amapá).

No vídeo ela afirma que, quando foi aluna da professora, sua educação foi totalmente negligenciada. “Triste experiência: sem interação, sem metodologias, sem espaço para aprender. Eu, surda, totalmente excluída. Excluída das atividades em grupo, pelos colegas, pela própria professora.

E o problema está longe de aparecer apenas na educação, muito embora esse tenha sido o tema da redação. O problema está na forma como a deficiência auditiva é tratada na maioria dos casos na sociedade.

Lá nos tweets, a Luna dá alguns exemplos:

Se você é professora e não naturaliza filmes com legenda, você é parte do problema. se você é arquiteta e não naturaliza rampas e outros recursos, você é parte do problema. se você é dono de um cinema e não põe audiodescrição nos filmes, você é parte do problema.

E mesmo no lugar onde a discussão é proposta, as pessoas ainda têm muito que aprender e ainda tem muito caminho a ser percorrido. No meio da prova em uma escola em Santa Bárbara D’Oeste no interior de São Paulo, Danilo Maralha Ribeiro, um estudante de 17 anos, foi retirado da sala e revistado (!!!) por causa do seu… aparelho auditivo. Seu aparelho foi removido, danificado e ele ainda perdeu um tempão de prova.

Esse tipo de comportamento é absurdo e mostra o quanto a sociedade ainda precisa se educar sobre as pessoas com deficiência auditiva que vivem com a gente.

A luz no fim do túnel vem de pessoas que estão inseridos na cultura surda e procuram ajudar e conscientizar as pessoas ao seu redor. No Twitter, a Ana, além de falar sobre sua experiência com uma educação oralizada que muitas vezes a prejudicou, também falou sobre os planos dela:

No entretenimento…

Acessibilidade ainda é uma obrigação para as emissoras, mas o closed caption é uma realidade que atende à maioria dos surdos, oralizados ou não. Porém, poucos são os programas que disponibilizam intérpretes de Libras ou a legenda para filmes e programas nacionais.

Em alguns lugares do mundo, como por exemplo os Estados Unidos, as iniciativas também são raras, mas existem, como aqui no Brasil. Por exemplo, no ano passado, a peça Hamilton, na Broadway, teve um final de semana onde todas as músicas foram apresentadas também na língua de sinais americana**. O elenco até deu uma amostra de como foi:

**Existem mais de 200 línguas de sinais no mundo e cada uma tem suas próprias normas.

A youtuber Larissa Jorge tem um canal no YouTube com 30 mil inscritos sobre maquiagem totalmente em Libras, com legendas em português e inglês para que ouvintes também possam aproveitar o conteúdo.

Os vídeos do Gabriel também são incríveis e falam muito sobre inclusão.

O site Cultura Surda reúne esse e outros canais e programas feitos para deficientes auditivos.

O Projeto Alumiar, uma iniciativa de Recife, promove sessões de filmes totalmente inclusivas e acessíveis a pessoas com deficiências sensoriais (auditiva e visual). “Quinzenalmente o Cinema da Fundação exibirá filmes com três modalidades de acessibilidade comunicacional: Audiodescrição (AD) para pessoas cegas ou com baixa visão; Língua Brasileira de Sinais (Libras) para pessoas surdas e; Legendas para surdos e ensurdecidos (LSE).” 

A única coisa que podemos fazer para não sermos coniventes com o desrespeito da sociedade em relação aos deficientes auditivos não importa em que lugar do espectro eles estejam, não importa “o nível de surdez.”

Eduque-se, tenha certeza de que sua escola e os ambientes que você frequenta também estão. E, se não estiverem, junte-se ao coro que os cobra!

Fontes importantíssimas que ajudaram na construção desse artigo:
Blog do Hugo (Hand Talk)
Cultura Surda
Desculpe, não ouvi! por Lak Lobato
O quê? Como? Não entendi…

Taylor Swift, o poder da reputação e a liberdade de começar de novo

taylor swift

No último dia 10 de novembro de 2017, Taylor Swift mostrou ao mundo reputation (assim mesmo, com a grafia minúscula), seu novo trabalho pouco mais de 3 anos depois da explosão de 1989.

Como fã, estou satisfeita com o trabalho, que é musicalmente coerente em todas as suas faixas e é bem gostoso de ouvir, seguindo uma vibe electropop beirando o synthpop já conhecida de 2017. Sonoramente ele não difere muito de discos como o Melodrama, da Lorde, e Red Pill Blues, do Maroon 5.

Mas eu hoje eu não tô aqui pra falar sobre reputation: o disco, e sim, de reputation: a mensagem.

Em 19 de agosto, os fãs de Taylor acordaram com a surpresa de que tudo presente nas mídias sociais da cantora –Twitter, Instagram, Tumblr e até mesmo o site oficial dela– havia sido apagado completamente, deixando todo mundo sem saber exatamente o que pensar. Pouco depois disso, ela anunciou o reputation, que, em bom português, significa “reputação.”

Seu desaparecimento das redes sociais bem como da mídia durante boa parte de 2016 e 2017 deixava uma mensagem clara que fazia alusão total ao nome do disco: ela havia apagado toda a sua reputação, sua bagagem, pronta para começar de novo.

É claro que uma celebridade do calibre de Taylor não ia ter sua reputação “apagada” assim da noite pro dia, ninguém ia deixar que isso acontecesse, e certas coisas são difíceis de esquecer. Mas o ponto não é esse. O ponto é a sensação de liberdade que é poder começar de novo, ainda que para si mesma, ainda sendo dona de uma bagagem emocional tão grande.

E isso não vale só pra Taylor Swift, vale pra todo mundo.

recomeço

Durante muito tempo eu tive medo de recomeçar qualquer coisa: seja um livro que eu abandonei sabe deus por que, seja um caderno, seja a minha carreira. É muito comum a gente achar que a vida passa e a gente só tem a oportunidade de começar coisas UMA VEZ, e que existe hora pra tudo. Mas nem sempre.

Não é porque você não começou a faculdade assim que saiu da escola que você nunca mais vai ter a chance de começar uma faculdade, inclusive não é porque você começou uma faculdade que não pode desistir dela e começar de novo se não for isso mesmo que você quer. Tudo bem aceitar que você passou por algum momento difícil ou fim de namoro e precisa recomeçar, se entender e se recompor.

E aí chegamos na tal reputação.

Todo mundo tem uma reputação, você pode ser o ser humano mais ~de boa~ possível, ela está lá. A parte boa é que você pode mostrar ao mundo o lado seu que você quiser, a parte ruim é que a partir daí você não tem mais absolutamente nenhum controle sobre o que as pessoas fazem com essa informação.

Como eu vejo, existem dois tipos de reputação: aquela que você tem pras pessoas, e aquela que você tem pra sociedade. Parece que não mas são duas coisas diferentes, acompanha comigo: a primeira é como as pessoas te vêem (boazinha, vilã, vítima, falsa…) e a segunda é como você se comporta com relação à sociedade (seus atos em si).

Ambos os tipos de reputação, porém, são mutáveis. Para o bem e para o mal. Por exemplo: faz parte da reputação aquele tweet antigo que aquele influencer postou com piada racista e que tá na internet pra sempre, mas também faz parte da reputação dessa mesma pessoa aquele tweet que ela postou recentemente reconhecendo o erro e pedindo desculpas. Crescimento também é reputação, e nada nessa vida tá escrito em pedra.

A verdade é que todo mundo sempre vai ter alguma coisa pra dizer sobre todo mundo e, querendo ou não, essas opiniões acabam ficando com você pro resto da vida. Quem decide o que fazer com elas é você. Jimmy Eat World dá a dica:

“Viva agora, apenas seja você mesmo. Não importa se é bom suficiente pra outra pessoa.”
“Apenas dê seu melhor, faça tudo que você puder. E não se preocupe com o que os corações amargos vão dizer.”

Cabe a você respirar fundo e não levar em consideração a opinião dos outros, a sua reputação aos olhos do mundo, ao escolher começar de novo. Sua vida é sua e você dá quantos primeiros passos quiser!

Não é vergonha nenhuma: parar e começar de novo para se reconstruir não é ser covarde para enfrentar a vida como ela é, é rever ações e comportamentos para que você consiga dar cada vez mais o seu melhor ou ainda mais, é aceitar que você precisa de um tempo pra reiniciar e seguir em frente em paz consigo mesmo.

Olhos nas estrelas, pés no chão – Semana 46 #playlist

Num mundo que nos ensina a buscar sempre o sucesso, a excelência e a perfeição, é cada vez mais difícil concentrar nossa cabeça no fato de que o sucesso é relativo, a excelência depende do ponto de vista e a perfeição… bom, essa aí nem existe de verdade.

Falando em ponto de vista, saiba que o único ponto de vista importante pra medir sua excelência é o seu! Só você sabe seus pontos fortes e como investir neles 😉 Dê o seu melhor e você vai estar sempre pronto para conquistar o mundo!

Quando você dá seu melhor, pode mirar onde quiser.

Essa playlist foi feita especialmente inspirada no livro Recados do bem e na semana representada no título. Se você está acompanhando a leitura, aproveite! Toda semana, divulgamos uma nova no nosso perfil do Spotify. Se você ainda não acompanha a gente, segue lá agora: indiretasdobem.com/play!