Como enfrentar a solidão?

Te entendo, De Niro. (cena de Taxi Driver)
Te entendo, De Niro. (cena de Taxi Driver)

Minha relação com a solidão sempre foi muito ambígua. Por muito tempo eu a caçava e venerava como se nada mais valesse a pena. Estar sozinha, fazer as coisas a sós, poder aproveitar minha própria companhia e a dos livros. Viver amores apenas imaginários. Não ter que lidar com o desconforto social de interagir com outros humanos. Mas, no meio disso, eu tinha minhas crises de carência. A vida toda, a solidão só me servia quando era escolha. Quando vinha sem avisar, quando me deixava sem opção, ela me abatia. Abate até hoje.

Tem uma lição que aprendi há muitos anos com o Wilco e que sigo praticando enquanto conseguir. Eu era mais nova e, desde a primeira vez que ouvi Jeff Tweedy sussurrando “how to fight loneliness? just smile all the time”, eu pensei: é isso. Sorrir. Sorrir é mesmo a maneira mais eficiente de enfrentar a solidão. Quando sorrimos, enxergamos melhor o que nos cerca. Abrimos espaço para que as pessoas se aproximem, se interessem, puxem assunto. Ficamos mais interessantes com um sorriso no rosto. Mais vulneráveis, também.

play,loneliness

A grande questão é que nem sempre é fácil ou possível sorrir. Pelo menos não pra mim. Não por falta de vontade ou de esforço, sabe? Apenas porque é a vida, e é assim. Sorrir às vezes é viver de mentiras – e eu não consigo fazer assim. Então, mais do que enfrentar a solidão, precisamos aprender a conviver com ela. Até porque, vamos combinar, o que mais atrapalha a vida é o medo da solidão. E fica muito difícil sorrir com medo, aí acabamos presos numa salinha com aquilo que menos gostaríamos de enfrentar. É meio que um beco sem saída.

Não existe nada mais maravilhoso que, depois de um dia cansativo, sentir a delícia de esparramar-se na cama e aproveitar todo o espaço sem se preocupar. Criar planos mirabolantes de viagens e programas malucos e não ter que dar satisfação a ninguém. Sentar no sofá só de camiseta e calcinha e assistir ao que quer que seja, sem nem olhar direito para a televisão, apenas pelo prazer de se desligar do mundo. Mas às vezes queremos companhia. Alguém pra dividir o sofá enquanto assistimos uma série empolgante ou um filme cabeçudo. Alguém pra dormir abraçadinho enquanto fazemos carinho nos cabelos. Alguém que tope qualquer passeio maluco pelo prazer de sair de casa – e que volte junto pro ninho pra aproveitar horas de silêncio e o compartilhar de atividades diferentes no mesmo espaço.

Joaquin Phoenix em Her é uma síntese do poder que a solidão exerce sobre a gente.
Joaquin Phoenix em Her é uma síntese do poder que a solidão exerce sobre a gente.

Solidão é uma delicia, solidão é um pesadelo. E a única maneira de enfrentá-la é sorrindo. Sorrindo dela, quando ela tentar te fazer sentir pequeno e não merecedor. Sorrindo com ela, quando ela alimentar sua criatividade e sua paz de espírito.

Só sorria o tempo todo. A vida se encarrega do resto.

Mas olha – não se sinta culpado se não conseguir. De vez em quando, curtir uma tristeza também faz bem. É só não deixar que ela tome conta do seu coração. Eu tento acreditar nisso todos os dias – principalmente naqueles como hoje, em que a solidão ataca como facadas no estômago e que o sorriso não aparece sequer como reflexo nervoso.

E, quando nada dá certo, aperto o play, fecho os olhos e escapo um pouco.

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4 comments

  1. Gostei tanto que acho que vou morrer de felicidade por ter achado o blog de voces hahahhaha
    Amei <3

  2. Exatamente e assim minha vida…..meu dia a dia! perfeito lindo!

  3. Marcia Fernandes

    Amei!…..me sinto assim…. 🙂

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