Derrubando o Grammy, um discurso por vez

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A essa altura do campeonato, se você acompanha essa ~temporada de premiações~ que é o começo do ano, você já sabe os principais vencedores do Grammy 2017, então eu não preciso ficar aqui falando pra você. O que eu vou falar é muito mais importante e é sobre o que acontece quando uma mulher enaltece a outra.

A maioria de nós cresceu numa cultura onde atacar outra mulher era normal. Era normal sentir raiva das amigas solteiras do seu namorado, era normal se irritar com as patricinhas da escola –e achar que elas estavam vivendo a vida toda errada– e era normal fazer amizade com meninos “porque é mais verdadeiro, já que menina é tudo falsa.” Hoje, nós vivemos dentro da revolução de pensamento, que caminha a passos lentos, porém constantes.

São em premiações como o Grammy que os dois extremos ficam tão evidentes. Se de um lado há quem insista nas brigas Katy Perry é melhor que Britney Spears é melhor que Lady Gaga é melhor que Rihanna é melhor que Beyoncé é melhor que Adele, do outro existem as próprias ~divas pop~, dando discursos como o que Adele deu na noite de ontem, depois de ganhar o prêmio de Álbum do Ano:

“Como vocês podem ver, foi preciso um exército pra fazer eu me sentir forte e disposta a fazer isso de novo [enquanto os produtores responsáveis pelo disco subiam ao palco junto com ela, e fazendo referência às crises de depressão e ansiedade que ela teve]. (…) E na minha gravidez e depois de me tornar mãe eu perdi muito de mim mesma. E eu sofri, e eu ainda sofro sendo mãe. É muito difícil. Mas ganhar isso essa noite faz com que o ciclo se feche, e eu sinto como se um pouco de mim mesma tivesse voltado.

Mas eu não posso aceitar esse prêmio. E eu sou muito humilde e muito grata e surpresa. Mas a artista da minha vida é Beyoncé. E esse álbum pra mim, o ‘Lemonade’, é tão monumental. Beyoncé, é tão monumental! E tão bem pensado, e tão lindo e honesto e nós conseguimos ver um lado de você que você nem sempre nos deixa. E nós valorizamos isso. E todos nós aqui adoramos você. Você é nossa luz.

E o jeito como você faz eu e meus amigos se sentir, o jeito como você faz meus amigos negros se sentirem, é empoderador. Você faz eles se imporem e se defenderem. E eu te amo. Eu sempre amei e sempre vou amar.”

Tem como não amar?
Tem como não amar?

É difícil não entrar em discussões e rever pontos sobre merecimento e cultura negra, já que o Lemonade é um álbum tão completo sobre o qual já falamos aqui, mas no final das contas as maiores protagonistas da noite ainda foram duas mulheres que desafiaram a tão machista indústria musical juntas, cada uma do seu jeito –uma mostrando que se for pra ter o coração partido, por que não ganhar dinheiro com isso (#prioridades) e a outra mostrando que existe muito da cultura negra que o mundo não conhece e que talvez agora estejamos prontos para conhecer e admirar e apreciar sem diminuir. Estamos falando de duas mulheres que cantaram sobre problemas diferentes com uma intensidade que vinha do mesmo lugar, e que foi suficiente para elas enaltecerem elas mesmas, em uma premiação cujo significado e necessidade de validação vem se perdendo cada vez mais.

O discurso de Adele não foi apenas ela dizendo que não merecia o prêmio, já que isso ela nunca disse. A maravilha do discurso está em ver que Adele reconhece seus próprios problemas como mãe, reconhece suas vitórias pessoais por estar ali (e isso é incrível!), mas também reconhece a genialidade do trabalho de outra pessoa com tanta intensidade como se tivesse defendendo o seu próprio. É mais do que um “se ganha uma, ganhamos todas”, é um “eu consigo ver as minhas vitórias e as suas ao mesmo tempo.”

Quem ganha com isso? Nós, que ganhamos dois álbuns que representam os melhores trabalhos de suas donas até agora, e a Rihanna, que tava na premiação pra ser linda, gritar muito na apresentação da Katy Perry e mandar um beijinho pra Bey na platéia, casualmente 😉

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