Não julgue um menino pela cara: “Extraordinário” e o bullying

O período da escola pode ser maravilhoso e cheio de aprendizado sobre o mundo e como as coisas funcionam, mas para alguns pode ser um verdadeiro pesadelo.

Isso porque às vezes para os colegas de escola qualquer coisa é motivo para transformar outras crianças na grande piada do pátio. Uma vez “alvo”, é muito difícil se desvencilhar disso, e o que pode ter começado como uma brincadeira que em primeiro momento arrancou risadinhas de ambas as partes, pode evoluir para o bicho-papão de toda criança: o bullying.

Recentemente lançado no Brasil e no mundo, Extraordinário é um filme dirigido e roteirizado por Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível), e que, entre outras coisas, fala sobre bullying em uma das suas formas mais cruéis e sobre o poder de uma rede de apoio.

O que é bullying?

É importante dizer que existe uma diferença muito grande entre uma brincadeira e um bullying, e ela é bem notável. Não é algo que dá pra dizer “achei que você soubesse que era uma brincadeira”, já que o desconforto da pessoa “bolinada” é palpável.

Também chamado de AMI (Assédio Moral Infantojuvenil), o bullying é definido como atos de violência física ou psicológica repetidos (essa é meio que a palavra-chave aqui) que pode ser praticado por uma pessoa só ou um grupo, causando dor e angústia na pessoa que é o alvo. Pode ser praticada por pessoas no mesmo nível que seu alvo (por exemplo alunos de uma mesma sala) ou por pessoas que abusam de poder (mais comum).

O bullying começou a ser usado como termo oficial em 1999 após o que ficou conhecido como o Massacre de Columbine, que aconteceu na Columbine High School, uma escola americana no Colorado. Na ocasião, Dylan e Eric, dois alunos que por muito tempo foram ridicularizados e hostilizados especialmente pelo grupo de atletas da escola, mataram 12 alunos e um professor, e depois cometeram suicídio.

Existe também o bullying que acontece no ambiente ~cibernético~, chamado de cyberbullying. A internet permite que, em muitos lugares, você consiga entrar como usuários anônimos, o que faz com que o praticante de bullying se sinta blindado de respeitar qualquer ética e possa usar vídeos, fotos e outros artifícios para assediar.

Os danos causados pelo bullying

No caso de Dylan e Eric, a consequência direta de sofrer bullying por anos e anos foi a violência extrema causada pelo trauma, mas nem sempre esse é o desfecho dessas histórias.

De um lado mais sombrio do espectro, existem as histórias que terminam em adolescentes cometendo suicídio após estarem cansados de se sentirem sozinhos, angustiados e acuados. São pessoas que sofrem tanto que a única saída é a mais definitiva.

Na cultura pop, exemplos desse lado são a série 13 Reasons Why (que já falamos aqui) e o episódio 16 da 3ª Temporada de One Tree Hill (With Tired Eyes, Tired Minds, Tired Souls, We Slept).

“Essa escuridão tem um nome? Essa crueldade, esse ódio. Como isso achou a gente? Ela rouba nossa vida ou nós a procuramos e a abraçamos? O que aconteceu conosco, que agora mandamos nossas crianças para o mundo como mandamos nossos homens para a guerra? Esperando que eles voltem em segurança, mas sabendo que alguns se perderão no caminho. Quando nos perdemos? Consumidos pelas sombras, engolidos pela escuridão. Essa escuridão tem um nome? É o seu nome?”

De um lado mais positivo do espectro, existem as histórias que terminam em um final “feliz” onde a situação é resolvida junto ao conselho escolar (e, se necessário, a polícia). Nesses casos, os alvos mudam de escola ou os agressores são presos.

Vocês devem estar se perguntando porque o feliz ali em cima está entre aspas, e a causa é simples porém devastadora: se você passa por uma situação de bullying, as cicatrizes ficam com você por muito tempo, sejam cicatrizes físicas ou psicológicas. O dano causado pelo bullying é assunto em muitas consultas com psicólogos pelo mundo, e pode causar uma sensação de vazio na vítima.

“Escolha ser gentil”: Extraordinário e suas lições

Já faz bastante tempo que eu li Extraordinário, e eu botei todo mundo pra ler lá em casa, e a opinião foi uma só: por ser tão absurdamente necessário, deveria ser um daqueles livros obrigatórios de escola.

De uma forma bem resumida, o livro, escrito pela americana Raquel J. Palacio, conta a história de Auggie Pullman, que sofre de uma doença e, por causa dela, sempre foi criado em casa. Ao começar a quinta série, porém, os pais resolvem introduzí-lo a uma educação normal, numa escola da região.

As coisas começam a acontecer quando ele tem que lidar com a ignorância das pessoas com relação a sua doença.

O que o Auggie tem afinal?

Disclaimer: eu não sou médica, então as explicações aqui serão pontuais e superficiais.

Auggie nasceu com a Síndrome Treacher Collins, uma doença genética causada pela mutação de dois arcos genéticos específicos. Por causa dessa síndrome, que é raríssima, Auggie (e as crianças reais que sofrem com ela) sofre com deformações nas orelhas, nos olhos, nas bochechas e no queixo. Ela também vem acompanhada de problemas para respirar, para falar e para ouvir. Apesar da doença ser incurável, ela pode ser parcialmente controlada com cirurgias, fonoaudiologia e equipamentos auditivos, e a expectativa de vida é normal.

Veja o Auggie no cinema!

A história de Extraordinário é tão relevante que virou um filme incrível.

É muito importante passar essa história em diante e saber que ainda existe lugar pra se discutir esse assunto com tanta sensibilidade como é na obra.

A fidelidade do roteiro de Stephen Chbosky ao livro de Raquel impressiona e nos carrega pela vida de Auggie de um jeito que tem o poder de transformar nossos pensamentos e o jeito como vemos aqueles que são diferentes da gente.

É pra sair do cinema querendo transformar mundo carregando o bom exemplo que Auggie nos dá!

Amizade é aceitar o que faz do outro um ser único

A história começa com um inegável medo (por Auggie) quando acompanhamos os primeiros passos de Auggie pela escola, e isso só aumenta conforme as páginas vão passando, especialmente por causa das reações dos professores, alunos e pais.

Assim como as experiências pessoais de Raquel que a inspiraram a escrever Extraordinário, não é nenhuma surpresa que todo mundo fique desconfortável e em certo momento uma das mães até chegue a dizer que a presença de Auggie na escola é mais do que os alunos podem aguentar.

O ponto principal da história não é nem tanto a doença, mas sim como as outras crianças são capazes de mudar a visão de Auggie sobre ele mesmo. Apesar de ser uma criança relativamente bem resolvida e ter uma doença extremamente complicada também fisicamente, Extraordinário não é um livro/filme sobre isso. É uma obra sobre apoio.

A importância de uma rede de apoio

Tudo na história do Auggie gira em torno de interações, tanto as positivas quanto as negativas, já que essa é uma parte tão delicada da vida dele por ele ser do jeito que é.

É muito importante reconhecer que, muito embora a gente deva relevar certos tipos de comentários, o bullying pode ser muito determinante na hora de definirmos para nós mesmos quem nós somos. No caso do Auggie, o jeito com alguns colegas o trata é determinante na hora dele afirmar que é feio ou coisas do gênero.

Quando falamos de alguém que sofre bullying, estamos falando de uma pessoa que em 99% dos casos se vê absolutamente sozinha num mundo que só sabe ser cruel com ela, e a resposta que ela dá a esse tipo de comportamento pode ir da depressão profunda à atos extremos de vingança. Por isso uma rede de apoio é tão importante, não só da família como de amigos.

Bullying e o desejo de ser invisível

“Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria para ter um rosto comum, em que ninguém nunca prestasse atenção.”

Essa é uma frase que aparece no livro e resume bem o que uma pessoa que sofre de bullying normalmente sente, e pode inclusive ser um dos sinais para você perceber que alguém está sofrendo caso a pessoa não se abra contigo.

No caso do Auggie, ele usa um capacete de astronauta desde sempre para esconder seu rosto do mundo, mas no mundo da não-ficção esse desejo pode se manifestar tanto das formas mais simples como querer parar de ir à escola, até as mais “complexa” como uma mudança de estilo, no caso para roupas e acessórios que chamem menos atenção.

Você está presenciando ou sofrendo bullying? O que você pode fazer?

Auggie é uma criança que tem pais sensíveis e que faz amigos ainda mais sensíveis, mas tudo é aprendizado, especialmente no caso de crianças cruéis. Elas não são cruéis pra sempre se soubermos falar com elas. Porém, é preciso não só querer falar mas também ter a coragem de falar.

  • Identifique um adulto/autoridade com o qual você se sinta seguro de conversar. Pode ser tanto alguém da escola (ou do ambiente de trabalho, quem sabe) ou seus pais.
  • Imponha-se, quando possível. Por muitas vezes no caso de um bullying repetido, mas “leve”, o praticante só quer audiência. Caso você aceite o apelido ironicamente ou simplesmente ignore, é possível que a pessoa pare. Vale lembrar que: se você teme pela sua segurança, essa dica não vale e é melhor que você se afaste e procure uma autoridade que você confie.
  • Incentive políticas anti-bullying na escola ou no ambiente de trabalho sempre que você puder. Quando você mostra desconforto com relação à prática de bullying, você encoraja que pessoas que estejam sofrendo se sintam mais abertas à falar. Alunos e funcionários precisam saber que aquele ambiente leva o bullying à sério.
  • Alguns adultos não sabem lidar com bullying, e tudo bem. Sugira que os adultos mais responsáveis como monitores e professores recebam um treinamento adequado.
  • Converse com seu filho ao menor sinal de problema e o encoraje a ver que você está disposto a ouví-lo, entendê-lo e trabalhar junto com ele para que ele se sinta mais confortável. Por mais que, no caso de um aluno de escola pública, seja difícil mudar de escola assim tão facilmente (privilégios de classe, né?), saber que sua casa é um ambiente seguro já ajuda MUITO e diminui a sensação de solidão e impotência.
  • Cyberbullying é um ato punível como qualquer outro. No Brasil, apesar do cyberbullying especificamente ainda ser enquadrado no Código Penal como crime contra a honra, existe a Lei 12.737/2012, também chamada de Lei Carolina Dieckmann, sancionada em 2012, que pune os chamados “crimes informáticos”, que apesar de ter algumas brechas (alguns especialistas acham a lei ampla demais), pode te ajudar na hora de levar um caso pra justiça, por exemplo, caso necessário. No caso de violência virtual contra a mulher, o site feminista Think Olga sugere uma série de passos que você pode seguir. Quando os ataques são “mais leves”, vários sites contam com severas políticas de denúncia.

Bullying é um dos problemas que mais cresce no mundo, e pode ser o primeiro capítulo de uma infância e adolescência que vai ser extremamente conturbada se a gente não prestar atenção. Tendo sempre em mente que o bullying não é necessariamente físico como também verbal, preste atenção nos sinais e no quanto esse ato é repetido. Notar o bullying cedo e se tornar parte do apoio e da solução pode ser a diferença na vida de quem sofre com esse tipo de violência, principalmente no ambiente escolar mas também no ambiente de trabalho e no ambiente cibernético. Seja um aliado!

Corre pros cinemas que ainda dá tempo, e não se esqueça: sempre que tiver que escolher entre estar “certo” e ser gentil, escolha ser gentil.

Sempre.

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