O que eu queria te contar

florescer

Oi,

Faz um tempo que a gente não conversa direito, você e eu. A gente já mudou tanto, né? Mas ainda sim a gente continua a gente, de alguma forma. Hoje foi um dia difícil por aqui e, pela primeira vez em algum tempo, senti vontade de te alcançar de alguma forma, porque tem dias que nenhum amigo é melhor do que nós mesmos.

Sei que deveria ser minha melhor amiga e que preciso cuidar mais de mim, desculpa por isso. Você sabe que às vezes a gente é meio negligente, que esquece mesmo e não é nem intencional.

Sei também que você está usando cada pedacinho de si para se segurar e não surtar quando tudo se torna bem difícil, como você sempre faz porque sente que tem que cuidar dos outros e responder “tudo bem, tá tudo bem… uhum, tudo bem”, porque tem medo de magoar alguém com sua vulnerabilidade. Mas não tá tudo bem não, a gente sabe…

O que eu queria te contar hoje é que você pode. Pode (e deve) se permitir sentir essas coisas todas que ficam borbulhando dentro de si, antes que elas explodam feito feijão na panela de pressão – um estrago e uma sujeira que só.

fique firme enquanto dói
faça flores com a dor
você me ajudou
a fazer flores com a minha
então floresça de um jeito lindo
perigoso
escandaloso
floresça suave
do jeito que você preferir
apenas floresça

– para quem me lê (rupi kaur)

Pode sentir, mas pode principalmente acreditar. Eu acredito que a maior parte da nossa força é essa: reconhecer as fragilidades e admitir que alguns dias não vai estar nada bem não. Muito pelo contrário. O jogo só vira e começa a dar certo quando a gente pega todo esse novelo de sentimentos e começa a desembolar, criar uma coisa nova a partir daquilo.

Ver o mundo de outro jeito. Tentar de novo, de outro jeito. E outro. E seguir tentando, porque isso a gente sabe fazer muitíssimo bem. De novo, você pode. No fundo você sabe disso, porque já ficou ruim antes, e aí depois piorou para só então melhorar – tudo porque você foi capaz de lidar, de viver, de continuar.

E ainda que o resultado seja completamente diferente do esperado você está aí, o que é um bom sinal. Um ótimo sinal. Sinal de que conseguiu passar pelas turbulências.  Que muitas vezes não eram nem turbulências, eram furacões mesmo, vamos ser sinceras. Sei que enquanto lê isso seu nariz torce, porque não gosta de admitir que foi pesado depois que tudo acalma. Gosta mesmo de dar os ombros e fingir que nem foi nada de mais, mas não tem motivo para diminuir os perrengues que cruzam seu caminho.

O coração também continua aí, batendo. Não saiu pela boca ainda não, pode ficar sossegada que não vai ser dessa vez e nem da próxima. Na verdade, isso só mostra que quaisquer que sejam as dores, uma hora passa. Ainda que algumas levem mais tempo que outras e chacoalhem mais as poucas certezas que a gente carrega nessa vida.

Lembra que quando você era criança e ficava triste e tinha vontade de chorar? Eu já nem lembro mais os motivos motivos que deixam as crianças tristes e com vontade de chorar, só lembro que existiam. E a gente ia encarar o espelho do banheiro, fazendo caretas pra si mesma até começar a dar risada e a vida seguia. Era mais fácil naquela época, mas a gente dava o nosso jeito.

Dessa vez não vai ser diferente. Tenho fé na gente.


ps. esse post originalmente era uma página do meu diário que escrevi de mim para mim mesma, mas acabei adaptando para a internet, o universo e além. na época era para mim, mas poderia ser para você, você e você também. para todo mundo.

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1 comment

  1. Quantos sentimentos e momentos passaram por mim durante a leitura <3
    Incrível!

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