Seja quem você ama

Então… Eu sou gorda. Por muito tempo a minha mãe não me deixava usar essa expressão. Ela me fazia dizer “eu estou gorda”, dizia que eu não deveria aceitar essa condição e sim emagrecer, tentava criar solução pra um problema que nem existia. Minha mãe me ama e queria me proteger, só isso. Eu era bem mais magra do que sou hoje, aliás. E não me sentia incomodada com o meu corpo – me sentia incomodada com o fato das pessoas se preocuparem tanto com ele. Mas eu era jovem (ainda sou!!!) e achava que a solução era ceder a esses apelos externos. Afinal, “gorda não pode ser saudável”, né? “Não existe gorda feliz”. E “gorda assim você nunca vai arrumar um namorado, Ariane”. Se quem já havia vivido muito mais que eu dizia isso, quem eu era pra duvidar?

Não, não e não. Em algum momento da vida, que eu não lembro qual, mas que foi muito importante pra minha evolução, eu decidi que isso não me importa. Não estou falando do fato de estar fora do padrão, porque eu sempre estive e sempre gostei de ser assim. Sempre pintei o cabelo de cores estranhas, sempre coloquei piercings e usei maquiagem preta e camisa de banda até pra ir à igreja, sempre fui fiel ao que queria.

minha única foto de biquini na adolescência. já vai completar DEZ ANOS. :~

minha única foto de biquini na adolescência. já vai completar DEZ ANOS. :~

O que não me importa mais é o que os outros pensam sobre mim. Mesmo que sejam pessoas que eu amo. Quem gostar de mim, gosta do que eu sou. O pacote completo. Sobretudo, quem gostar de mim sabe, por exemplo, que eu faço academia sim, apesar de não ficar postando foto. E que eu controlo minha alimentação, apesar de não fazer dieta. E eu não faço questão que as outras pessoas saibam mesmo disso, porque é exclusivamente pela minha saúde (que, por sinal, é excelente! obrigada).

“Mas se você não se importasse de verdade, não estaria falando sobre isso”. É, eu também pensei assim por muito tempo. Calei diante de um monte de gente babaca porque pensava “Foda-se, eu tô feliz e é o que importa”. Só que nos últimos tempos eu percebi que muita gente passa por isso e nem todo mundo percebe a importância de ligar o botãozinho do foda-se. Em um dia comum do meu recesso, postei fotos minhas na praia e recebi parabéns pela coragem! Que coragem, gente? Eu estava ali, curtindo um momento específico, e publiquei uma foto dele. Faço isso todos os dias. Não preciso de coragem pra postar uma foto minha.

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Euzinha no recesso de Janeiro.

Mas muita gente precisa. Comecei a receber mensagens de pessoas agradecendo por mostrar a elas que você pode ser feliz exatamente como você é. Que você não deve nada a ninguém. Que não importa se você é gorda, magra, alta, baixa, peituda ou não – se você se sentir bem assim, ninguém tem nada a ver com isso. E que se você não se sentir, tem todo o direito de correr atrás daquilo que acha melhor pra si. Por si mesmo, não pelos outros.

Não recebi só agradecimentos, não. Claro que não, né? Estamos na internet. De repente, começaram a pipocar no meu email algumas mensagens odiosas – anônimas – criticando meu corpo. Nessa hora eu entendi o tal elogio “parabéns pela coragem”: as pessoas acham que você está se sujeitando ao julgamento delas. Eu não estou. e ninguém deve estar. Você não é obrigado a me achar bonita – não é obrigado a achar ninguém bonito, na real. Mas o mínimo que você pode fazer é respeitar as escolhas dos outros.

Um exemplo muito mais claro é a Tess Holiday, uma das mulheres mais lindas que eu já vi, e que na última semana fechou contrato com uma agência de modelos e virou notícia no mundo todo por ser a primeira plus-size a conseguir isso. Milhares de pessoas atacam-na todos os dias por ser “horrorosa, apesar do rosto lindo”, por fazer “apologia à obesidade”, por “querer chamar a atenção”, motivos que não fazem sentido nenhum, veja bem – a única coisa sobre a qual a Tess fala diariamente é ser feliz exatamente como você é.

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Achei divertido parar pra pensar nisso. A parte triste é que as pessoas se importam mais em patrulhar o corpo alheio do que cuidar de si mesmas. A parte feliz é que eu não tô nem aí pro que é importante pra qualquer um além de mim e acho que todo mundo devia ser mais assim. Com mais Tess Holiday e menos meninas morrendo por conta de distúrbios alimentares. Com mais Vanessa Braga, indo lá e arrasando. Meu lema é: estou feliz, tenho plena consciência de quem eu sou e do que eu quero pra minha vida e, embora eu não viva fazendo apologia a um estilo de vida saudável ou ao “ame-se como você é”, eu realmente acredito nisso. E eu sei que me amar como sou não significa que todos tenham que me amar também. Acho que é isso que falta as pessoas entenderem: que muita gente vai vir com dez pedras na mão sem nem conhecer você ou sua história, apenas porque você não segue alguns padrões. E você não deve dar ouvidos a isso.

Essas pessoas estão passando por problemas muito mais graves do que aqueles que elas apontam em você: elas não atacam você porque você é especial, elas atacam você porque não sabem lidar com o fato de que você está tranquilo fora da curva. Elas não se aceitam, lutam todos os dias para estarem num padrão e, quando veem alguém que consegue ser feliz fora dele, sentem-se pessoalmente ofendidas. Então, a única coisa a esperar de verdade é que essas pessoas que gastam seu tempo mandando mensagens odiosas sobre o corpo alheio possam um dia ser felizes com os seus. :)

Se você não está feliz, tem todo o direito de mudar. Você pode e deve ser quem você quer e como quer. Não pelos outros, mas para ter paz ao se olhar no espelho todos os dias. Mas se você está feliz e te disserem que isso é errado, nem se preocupe em responder.

No mais, a Tess está lá linda e rica assinando contratos e mais contratos e sendo conhecida pelo mundo todo. Vanessa Braga desfilou e se sentiu maravilhosa, é isso que importa. E eu? Eu tô aqui curtindo esse verão de 40º e vai ter foto de maiô se eu quiser. Vai ter de lingerie e até pelada se der na telha. Assim é a vida. Não é questão de coragem, é questão de autoconhecimento. E olha: o que não falta é gente diferente – e linda! – pra provar que dá pra se feliz SIM.

Quem não gostar pode sempre dar unfollow e seguir as modelos que tem conta nas redes sociais. Eu sou assim e é assim que vai ser. É extremamente ok que você não ache bonito. Que você não goste. Mas não é nem um pouco aceitável que você não respeite.

E você? Como é e como gostaria de ser? Só o que importa é o que você se diz quando olha no espelho.

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Ps: Quando você vir alguma pessoa que você gosta se punindo e pensando mal de si mesma por conta do comentário de outras pessoas, lembre-a de não ser tão dura consigo mesma. Quando a gente aprende a se amar, fica muito mais fácil encarar qualquer coisa. :)

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